quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Resumo da reprodução 2011 - parte 2

No início de Abril, nascem finalmente as pequenas crias, pondo à prova as capacidades parentais dos progenitores, que por vezes têm dificuldade em satisfazer os seus apetites vorazes. Os progenitores mais dedicados revezam-se várias vezes de modo a estar sempre um adulto presente no ninho, uma vez que nesta altura os ninhos ainda são alvo de “visitas” de outras cegonhas rivais. O aguardado nascimento das crias do mais recente casal do condoninho da Renata, os Aranguezes, só se verificou mais tarde, mas infelizmente dois dos quatro ovos iniciais não chegaram a eclodir.

Em Maio, verificámos o grande esforço empregue pelos pais para alimentar as suas crias cada vez mais exigentes. Com as crias a crescerem num bom ritmo os progenitores não têm “asas” a medir e as crias mais velhas começam a passar algumas temporadas sozinhas na sua ausência. Quando regressam trazem pequenos lagostins, peixes ou material já digerido que regurgitam para o chão do ninho ou directamente para os bicos das crias, após os incentivos ruidosos. Neste mês também começam os primeiros exercícios de asas, aumentando a sua frequência ao longo do tempo. Nos ninhos mais ocupados, o espaço começa a ser pouco, e a competição entre as crias por um lugar onde se possam exercitar começa a ser notório. Durante uns dias de elevada pluviosidade verificou-se a morte de uma cria do novo casal, deixando apenas um rebento nesse ninho. Este tipo de acontecimentos não é surpreendente, uma vez que a mortalidade de crias é de facto superior quando a época das chuvas coincide com os primeiros dias de vida.

Nesta altura aumentam também de intensidade os ataques a alguns ninhos com crias, levando a que dois juvenis caíssem do ninho das Zacarias e ao eventual desaparecimento de um dos progenitores desse mesmo ninho. Mais tarde, um novo ataque levou a que mais uma cria caísse deste ninho, mas uma vez que já possuía alguma capacidade de voo, sobreviveu sendo a partir daí alimentada no chão pelo adulto. Não há uma explicação definitiva para estes acontecimentos, mas uma possibilidade prende-se com a competição por locais de nidificação nesta área com elevada densidade de indivíduos. Não é inédita a observação de intrusas que expulsam os progenitores e deitam fora os ovos, para ocupar posteriormente o ninho. Este caso poderá ser semelhante, uma vez que os ataques foram continuados durante o tempo, tendo como intenção desalojar as crias, aproveitando o facto de os progenitores estarem pouco presentes.

Estes acontecimentos parecem-nos atrozes do ponto de visto humano, no entanto, a tecnologia, ao permitir-nos observar de perto e sem perturbação o comportamento de diferentes espécies, tem revelado que situações como estas não são inéditas e poderão mesmo ser mais frequentes do que poderemos imaginar. Na altura do sucedido, vários comentários falaram da necessidade de fazer algo para mudar o rumo dos acontecimentos. Mas deixamos aqui a pergunta se será ético interferir no normal desenrolar da vida na Natureza, quando não houve interferência humana e quando a espécie não apresenta problemas de conservação?